A Celebração de Pentecostes

Artigo de Dom Bruno sobre a celebração de Pentecostes

A celebração de Pentecostes 

Dom Bruno Carneiro Lira, osb

Vigário Paroquial da Paróquia de Nossa Senhora de Fátima em Boa Viagem

A solenidade de Pentecostes no oitavo domingo depois da Páscoa e na conclusão das sete semanas pascais encerra esse tempo como que coroando a celebração da redenção do Senhor, visto que, só poderemos dizer que Jesus ressuscitou dos mortos no Espírito Santo. Aliás, no próprio dia de Páscoa Jesus já dá o Espírito aos apóstolos amedrontados. Por isso mesmo o evangelho da Missa do dia é o mesmo do dia de Páscoa, isso para garantir a unidade desse tempo sagrado.

O Missal Dominical (sd. p.470) diz.

A solenidade de Pentecostes celebra um acontecimento capital para a Igreja: a sua apresentação no mundo, o nascimento oficial com o batismo no Espírito. Complemento da Páscoa, a vinda do Espírito sobre os discípulos manifesta a riqueza da vida nova do Ressuscitado no coração e na atividade dos discípulos; início da expansão da Igreja e princípio da sua fecundidade, ela se renova misteriosamente hoje para nós, como em toda assembleia eucarística e sacramental, e, de múltiplas formas, na vida das pessoas e dos grupos até o fim dos tempos. A “plenitude” do Espírito é a característica dos tempos messiânicos, preparados pela secreta atividade do Espírito de Deus que “falou por meio dos profetas” e inspira em todos os tempos os atos de bondade, justiça e religiosidade dos homens, até que encontrem em Cristo o seu sentido definitivo.

Como vemos o Espírito de Deus trabalha sempre em nossos corações e sua função principal é nos conduzir ao convívio trinitário, por isso mesmo ele vem em nosso socorro, vem orar em nós e nos relembrar tudo aquilo que Jesus fez e disse para que possamos ser suas testemunhas até os confins do mundo, mesmo com a própria vida se preciso for.

Iniciaremos nossas reflexões pela Celebração Eucarística que propõe dois formulários eucológicos (fórmulas de orações), como também, para o lecionário: a Missa da Vigília e a Missa do Dia.

A Missa da Vigília traz a seguinte antífona de entrada: “O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito que habita em nós, aleluia”! Para oração do dia temos duas opções. Vejamos:

Oração do Dia 1:

Deus eterno e todo-poderoso quiseste que o mistério pascal se completasse durante cinquenta dias, até a vinda do Espírito Santo. Fazei que todas as nações dispersas pela terra, na diversidade de suas línguas, se unam no louvor do vosso nome.

Oração do Dia 2:

Concedei-nos, ó Deus onipotente, que brilhe sobre nós o esplendor da vossa claridade, e o fulgor da vossa luz confirme, com o dom do Espírito Santo, aqueles que renasceram pela vossa graça.

Observamos que as duas orações nos colocam dentro do tema da celebração de Pentecostes. A primeira evoca os cinquenta dias, ou seja, sete semanas como um número bíblico de plenitude. Aliás, esta solenidade é a plenitude da Páscoa. Pede ainda a unidade de todas as nações mesmo na diversidade das línguas. A segunda, evoca a luz, a claridade do Senhor, que é o próprio Espírito Santo, a fim de que venha confirmar todos os que foram renascidos no Batismo. Em seguida a Liturgia propõe quatro lições do Antigo Testamento, que antecedem a segunda leitura dessa celebração. São elas: Gn 11,1-9: Este texto narra o episódio da Torre de Babel. Todos sabem que Deus confundiu a humanidade pela variedade das línguas, no momento que o homem quis construir uma torre que pudesse chegar aos céus e se igualar ao Criador. A vinda do Espírito Santo faz justamente o contrário: todos se entendem na diversidade das línguas. Como segunda proposta, temos o texto do ÊX 19,3-8a.16-20b que trata da aliança do Sinai. Moisés sobe à montanha e lá escuta de Deus que se o povo ouvir a sua voz e guardar a sua aliança tornar-se-á uma porção escolhida, um reino de sacerdotes e uma nação santa. O povo concordou e ao terceiro dia, logo ao raiar da manhã, houve trovões e relâmpagos. Uma nuvem cobriu a montanha e um forte som de trombeta se fez ouvir. A montanha fumegava porque o Senhor desceu sobre ela no fogo. A nova Aliança, feita no Espírito Santo, também é selada no fogo que como línguas ardentes apareceram sobre Nossa Senhora e os Apóstolos no dia de Pentecostes. O terceiro texto proposto vem do profeta Ezequiel 37,1-14, tratando, portanto, da visão das ossadas ressequidas que ganham nova vida, revigoram-se mediante o sopro de Deus. O Senhor promete abrir as nossas sepulturas e infundir em cada um o Espírito de vida. Finalmente, o quarto texto sugerido para a primeira leitura vem do profeta Joel que traz a profecia da não distinção de pessoas na recepção do Espírito de Deus. Este pousará sobre jovens e velhos. Todos profetizarão e os que invocarem o nome do Senhor serão salvos. Em seguida cantamos como salmo responsorial, o 103 que evoca toda criação e a grandiosidade de seu Criador. A sua antífona é retirada do versículo 3: “Enviai o vosso Espírito, Senhor, e da terra toda face renovai”. Deus é mostrado como grande em suas obras, majestoso, iluminado, sábio e cheio de misericórdia, pois além de renovar a face da terra providencia alimentos para suas criaturas.

A segunda leitura é o texto da carta aos Romanos no cap. 8,22-27 que reflete sobre a criação que geme, e nós que já temos os primeiros frutos do Espírito,  aguardamos a adoção filial e a libertação de nosso corpo. O Espírito vem em socorro de nossa fraqueza, pois não sabemos o que pedir, pois é Ele que intercede em nosso favor e que penetra o íntimo de nossos corações. A aclamação ao Evangelho evoca o Divino Espírito sobre os fiéis para que seja acesa o fogo do seu amor dentro de todos os homens e mulheres que buscam o Senhor.

O evangelho dessa Missa da Vigília lembra Jesus na festa das Tendas. Nesse período os sacerdotes subiam à fonte de Siloé, pela manhã, para buscar água que traziam para o Templo em cântaros de ouro. Jesus observando esse rito diz: “Se alguém tem sede, venha a mim, e beba. Aquele que crê em mim, conforme diz a Escritura, rios de água viva jorrarão do seu interior” (Jo 7,37b-38). São João explica que Jesus falava do Espírito Santo que deviam receber aqueles que tivessem fé nele.

A Missa do Dia apresenta dois formulários para a antífona de entrada. O primeiro diz: “O Espírito do Senhor encheu o universo; ele mantém unidas todas as coisas e conhece todas as línguas, aleluia!” A segunda proposta é a mesma da Missa da Vigília.

A Oração do Dia, muito solene e completa, evoca o mistério litúrgico celebrado e pede ao Senhor que derrame sobre o mundo inteiro os dons do Espírito Santo. Assim diz:

Ó Deus que, pelo mistério da festa de hoje, santificais a vossa Igreja inteira, em todos os povos e nações, derramai por toda a extensão do mundo os dons do Espírito Santo, e realizai agora nos corações dos fiéis as maravilhas que operastes no início da pregação do Evangelho.

Vemos, ainda, a universalidade da oração e que o Espírito que vem sempre em nosso socorro é o mesmo do início da Igreja. Resta-nos abrir os nossos corações e com coragem e confiança testemunhar o Ressuscitado para que os seus prodígios possam se concretizar nesse mundo da sociedade do espetáculo e da aparência em que estamos inseridos.

A primeira leitura vem dos Atos dos Apóstolos 2,1-11 e traz a cena histórica do Pentecostes de Jerusalém. Todos estavam reunidos no mesmo lugar e o Espírito do Senhor manifestou-se em forma de vento e fogo onde estavam reunidos. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, ou seja, todos aqueles estrangeiros que estavam na cidade neste dia: habitantes da Mesopotâmia, da Judeia, da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egito e da parte da Líbia próxima de Cirene, e ainda, os romanos, judeus, prosélitos e árabes. Todos escutavam as maravilhas de Deus em suas próprias línguas. Portanto, o oposto do episódio de Babel. O Espírito de Deus sempre busca a unidade.

O salmo responsorial é o mesmo da Missa da Vigília o 103 e com as mesmas motivações já refletidas. Para a segunda leitura, a liturgia propõe três textos para escolha, conforme o ciclo de leituras (anos A, B e C). O primeiro é retirado da primeira carta de São Paulo aos Coríntios no cap. 12,3b-7.12-13 tratando que só poderemos dizer que Jesus Cristo é Senhor no Espírito Santo. Há diversidade de carismas mas um só é  De
us que dá seus dons para cada um e conforme a necessidade da comunidade e formamos um só corpo porque fomos batizados no único Espírito, por isso não há judeus ou gregos, escravos ou livres, pois todos são iguais perante Deus. O outro texto vem da carta de Paulo aos Gálatas 5,15-25 que reflete sobre o dualismo carne e espírito. Quem vive da carne praticando a fornicação, a libertinagem, a devasidão, a idolatria, a feitiçaria, as inimizades, as contendas, os ciúmes, as iras, as intrigas, as discórdias, as facções, invejas, bebedeiras e orgias não herdarão o reino de Deus; por outro lado os que praticam e têm os frutos do Espírito: a caridade, a alegria, a paz, a longanimidade, a benignidade, bondade, lealdade, mansidão, continência. Esses estarão em Deus. E, finalmente, como uma terceira opção temos o texto de São Paulo aos Romanos 8,8-17 portando o seguinte tema: todos aqueles que se deixam conduzir pelo Espírito de Deus são filhos de Deus, portanto devemos viver conforme o Espírito e não segundo a carne. O Espírito de Deus se une ao nosso e seremos coherdeiros de Cristo, pois se sofrermos com Ele, com Ele seremos glorificados.

Logo após a segunda leitura deve-se entoar a sequência de Pentecostes. Um texto poético que evoca a vinda do Espírito Santo sobre a Igreja e sua função benéfica sobre os fiéis. Eis o texto:

Espírito de Deus enviai dos céus um raio de luz!

Vinde, Pai dos pobres, dai aos corações, vossos sete dons.

Consolo que acalma, hóspede da alma, doce alívio, vinde!

No labor descanso, na aflição remanso, no calor aragem.

Enchei luz bendita, chama que crepita, o íntimo de nós!

Sem a luz que acode nada o homem pode, nenhum bem há nele.

Ao sujo lavai, ao seco regai, curai o doente.

Dobrai o que é duro, guiai no escuro, o frio aquecei.

Dai à vossa Igreja, que espera e deseja vossos sete dons.

Dai em prêmio ao forte, uma santa morte, alegria eterna. Amém.

Em seguida canta-se o Aleluia pascal com o seguinte versículo para aclamação ao Evangelho: “Vinde, Espírito Divino, e enchei com vossos dons os corações dos fiéis; e acendei neles o amor como um fogo abrasador.

O evangelho deste dia, como já anunciamos anteriormente é o mesmo do dia de Páscoa (Jo 20,19-23), ou seja, Jesus presente no meio dos Apóstolos, mesmo com as portas fechadas, mostrando-lhes as mãos e o lado com as marcas gloriosas da Paixão. Desejando a paz, dom da Páscoa e, ainda, soprando sobre eles para que recebessem o Espírito Santo e o poder de perdoar os pecados. Assim vemos a unidade do Tempo Pascal como um único acontecimento que tem sua plenitude com a vinda do Espírito Santo, de maneira discreta aos onze Apóstolos no dia de Páscoa, e na história, de modo universal, cinquenta dias depois da ressurreição. Há, também, outras sugestões de textos para o Evangelho quando ocorrem o ano B ou C. Temos, portanto, Jo 15,26-27;16,12-15 mostrando que o Espírito da verdade encaminhará a todos para a verdade completa. Jesus, assim, promete o Defensor. O outro texto vem de Jo 14,15-16.23b-26 trazendo a mesma temática: quem ama o Senhor guardará suas palavras e Ele enviará o Defensor, o Espírito que o Pai enviará em seu nome para recordar tudo o que Ele havia dito.

Não se poderá esquecer que neste dia, a despedida da Santa Missa se faz da mesma forma da Vigília Pascal, dia de Páscoa e sua Oitava, ou seja, acrescentando-se dois aleluia: “Ide em paz e o Senhor vos acompanhe, aleluia, aleluia! Graças a Deus, aleluia, aleluia!”

Finalizado o Tempo Pascal deve-se apagar o Círio e guardá-lo nos batistérios das Igrejas que os têm, com toda reverência, para ser usado na administração do sacramento do Batismo ou nas Exéquias.

Desse modo encerra-se o ciclo da Páscoa e recomeça-se, na segunda-feira seguinte, o Tempo Comum, que se celebra o cotidiano da Igreja e da nossa vida inserida no Mistério de Cristo.

Fonte: www.arquidioceseolindarecife.org

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